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Farmer Giles of Ham
Nem só de Terra-média vivia Tolkien, embora muitos leitores brasileiros ainda não saibam disso. O Professor também escreveu diversos contos fascinantes cuja ambientação não é a mesma de O Senhor dos Anéis, sem que a aura de beleza e fantasia tão característica de seus textos esteja ausente. E uma das melhores histórias dessa safra é, sem dúvida, Farmer Giles of Ham (Fazendeiro Giles de Ham). A trama de Farmer Giles se passa numa imaginária Grã-Bretanha antes do Rei Arthur, quando gigantes e dragões ainda ameaçavam os reinos da ilha e seus pobres habitantes. No sonolento vilarejo de Ham, o fazendeiro Aegidius Ahenobardus Julius Agricola de Hammo (Giles de Ham para os íntimos) leva uma vida pasmacenta, no melhor estilo do Condado, quando um gigante invade suas terras e Giles o derrota, virando o herói da região. O fazendeiro até que se adapta bem à nova posição de prestígio, mas o temível dragão Chrysophylax resolve atacar o reino onde Giles vive e a tarefa de enfrentar a criatura acaba sobrando para o pobre Aegidius. Farmer Giles of Ham consegue misturar de maneira muito inteligente e bem-humorada sátira, fantasia, aventura e erudição. Um atrativo à parte são as engraçadíssimas citações e nomes em latim, além do retrato nem um pouco lisonjeiro que Tolkien traça da nobreza medieval. A história pode ser encontrada em conjunto com Smith of Wooton Major ou na coletânea Tales from the Perilous Realm. Tom Bombadil Todos os que se encantaram com a beleza singela das canções e poemas em O Senhor dos Anéis têm outra oportunidade de apreciar a poesia de Tolkien em As Aventuras de Tom Bombadil. O livro é uma coletânea de 16 canções que fariam parte do Livro Vermelho, o relato da Guerra do Anel escrito por Bilbo e Frodo. Os poemas, pertencentes à tradição do Condado ou compostos por Bilbo, Frodo ou Sam, primam pelo bom humor e pela agilidade da rima. Algumas canções já conhecidas dos leitores graças a O Senhor dos Anéis reaparecem na coletânea, como a canção do Velho Troll (cantada por Sam), "A Vaca pulou pra Lua" (cantada por Frodo em Bri) e a canção do Olifante (também cantada por Sam). O poema-título do livro, As Aventuras de Tom Bombadil, é um divertido passeio pela Floresta Velha e seus inconfundíveis personagens: Bombadil, Fruta D'Ouro, o Velho Salgueiro e as Criaturas Tumulares. Em outras canções, como "Jornada" ou "O tesouro", as lendas dos Dias Antigos são retrabalhadas pelos hobbits, enquanto o décimo-sexto poema, "O último navio", trata da partida dos elfos da Terra-média. Uma pequena introdução explicando as influências e a temática dos poemas acompanha a coletânea. Tree and Leaf Niggle está longe de ser um pintor de sucesso. Há anos ele trabalha no mesmo quadro, uma árvore gigantesca cujos detalhes parecem aumentar cada vez mais à medida que ele prossegue na pintura. E seu vizinho Parish, incomodando-o todo o tempo, também não ajuda muito. Mas, sem saber, os dois estão prestes a pintar a árvore mais perfeita que já existiu. Esse é o ponto de partida de Leaf by Niggle (Folha de Niggle), sem dúvida uma das histórias mais "diferentes" e apaixonantes escritas pelo mestre J.R.R. Tolkien. Às vezes surrealista ou até kafkiana, misturando compaixão e um sombrio humor britânico, o conto é mais um tributo de Tolkien à capacidade libertadora da arte para o ser humano. Na verdade, a história de Niggle é a mais perfeita metáfora para o conceito da sub-criação, uma das idéias mais importantes no trabalho literário de Tolkien. Leaf by Niggle é uma profissão de fé na capacidade do artista de criar mundos novos e, assim, transformar este nosso mundo. Leaf by Niggle também pode ser encontrado na coletânea Tales from the Perilous Realm. Smith of Wooton Major Um bolo mágico, feito apenas a cada 24 anos para a Festa das Boas Crianças na vila de Wooton Major, carrega em uma de suas fatias um passaporte para Faery, o Reino das Fadas. E o premiado é o jovem Smith, que conhece regiões e maravilhas jamais vistas por olhos mortais. Essa é a premissa de Smith of Wooton Major, outro magistral conto de Tolkien com ambientação medieval e capacidade ilimitada de provocar a fantasia do leitor. Apesar de não fazer parte do ciclo da Terra-média, a influência da grande mitologia tolkieniana se faz sentir no próprio termo Faery, que era utilizado por Tolkien para denominar Valinor em seus escritos mais antigos. Como em O Hobbit e nos capítulos iniciais de O Senhor dos Anéis, Smith of Wooton Major é construído sobre a tensão entre o mundo cotidiano, seguro e palpável, e a irrupção do maravilhoso na vida aparentemente sólida dos seres humanos. O contato com as Terras Imortais aparece como terrível e belo ao mesmo tempo, perigoso mas indispensável para a plenitude do ser humano. Smith of Wooton Major pode ser encontrado em conjunto com Farmer Giles of Ham ou na coletânea Tales from the Perilous Realm. The Letters Tolkien passou uma enorme parcela de sua vida escrevendo cartas. Com efeito, o autor de O Senhor dos Anéis era um correspondente quase tão prolífico quanto os hobbits do Condado. Certa vez, quando quebrou o braço direito, ele chegou a confidenciar a seu editor: "Não ser capaz de usar uma caneta ou um lápis é, para mim, tão humilhante quanto seria a perda de seu bico para uma galinha". The Letters of J.R.R. Tolkien (As Cartas de J.R.R. Tolkien), livro organizado por Humphrey Carpenter, biógrafo do autor, e por Christopher Tolkien, seu filho mais novo, reúne uma porção significativa da imensa correspondência entre Tolkien e seus familiares, amigos, editores e simples fãs (os quais, surpreendentemente, parecem ter recebido grande atenção por parte do Professor, principalmente nos anos que se seguiram à publicação de O Senhor dos Anéis). Letters é fascinante em muitos aspectos: consegue revelar as opiniões pessoais de Tolkien sobre cultura, literatura, política, religião e vida familiar, ao mesmo tempo em que lança luz sobre aspectos de sua intrincada e sempre dinâmica mitologia. Ao mesmo tempo, Tolkien se revela um grande frasista, observador agudo das mazelas do século XX, crítico mordaz e irônico, mas que nunca perdia de vista o amor e a compaixão pelos seres humanos. Algumas passagens são antológicas: os conselhos dados ao filho Michael sobre o amor entre homem e mulher, as cartas emocionadas a Christopher quando este servia a Força Aérea na África do Sul durante a Segunda Guerra Mundial, cartões postais em runas e caracteres fëanorianos para admiradores, observações iradas a respeito de um roteiro cinematográfico completamente distorcido para O Senhor dos Anéis, e até desenhos da coroa do Reino de Gondor. Letters também ajuda a esclarecer algo que é motivo de tristeza para os fãs de Tolkien: o porquê de O Silmarillion nunca ter sido publicado durante sua vida. O Professor fez de tudo para publicar a mitologia dos Dias Antigos em conjunto com O Senhor dos Anéis, mas só conseguiu, a muito custo, que a editora Allen & Unwin publicasse este último. Quando o sucesso da Saga do Anel veio, era "tarde demais": Tolkien nunca pôde terminar O Silmarillion, por mais que tentasse. Publicado em 1981, Letters inclui também muitas notas feitas por Humphrey Carpenter e um índice onomástico bastante completo.
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